Dias Perfeitos: Uma Reflexão Sobre a Simplicidade
A contemplação e simplicidade da vida cotidiana - tema central do filme Perfect Days

Para o filósofo Nietzsche, a arte tem a incumbência de promover uma ressignificação da vida, incitando a coragem em libertar-nos dos grilhões culturais e sociais em nome da autenticidade plena do ser. O filme Dias Perfeitos, do diretor alemão Wim Wenders, cumpre essa missão. Provoca-nos com o contraste entre o modo de vida contemporâneo, ansioso e ruidoso, e a paz de uma escolha simples e desconectada.

Hirayama-san acorda diariamente ao som da vassoura varrendo a rua, dobra seu edredom azul, transformando-o em um sofá. Seu microapartamento em Tóquio revela um ambiente modesto, porém, organizado e encantador: livros, uma coleção de fitas cassete, um rádio e um pequeno jardim. Vestígios do olhar sensível do morador. Sem espaço para chuveiro, ele toma banho no sento, o tradicional banheiro público japonês. Toma seu café em lata — não gourmet, longe dos copinhos térmicos e dos grãos selecionados do Starbucks — comprado na máquina de autoatendimento do lado de fora.

Diariamente, dirige sua perua a caminho do trabalho, contemplando pessoas e paisagens, embalado pela trilha sonora de Lou Reed, Otis Redding e Nina Simone. Seu trabalho é simples e “não instagramável”: limpar banheiros públicos. O ofício modesto contrasta com a postura magistral do funcionário. Sua disciplina e esmero no serviço incidem sobre o trabalho. Ele usa espelhos para checar a sujeira embaixo dos vasos sanitários. Além disso, recorre a ferramentas personalizadas para aprimorar a qualidade da limpeza. Trabalha como um artista, mostrando-nos que a excelência e dignidade no trabalho não estão no que se faz, mas em como se faz.

Solteiro e solitário, Hirayama encontra poesia na rotina diária. Contempla árvores na hora do almoço. Janta regularmente no mesmo restaurante, sendo recebido pelo dono com um “Gokurosama desu” (traduzido como “obrigado pelo seu trabalho duro”). Portando uma câmera Olympus Pen, Hirayama fotografa o “Komorebi” — conceito japonês que representa a beleza da impermanência — a luz do sol filtrada pelas árvores. Beleza que não pode ser capturada e compartilhada nas redes sociais, somente testemunhada pela alma desconectada do virtual e atenta ao mundo.

Terminamos o filme com uma sensação de vazio — não a dele, mas a nossa. Perdemos a capacidade de contemplar os fatos corriqueiros, de ficar em silêncio, complicando demais a vida. Dias Perfeitos é uma crítica ao vazio existencial atual, causado principalmente pela hiperconexão digital. O filme nos lembra que a paz e a plenitude, ao contrário do que defendem os gurus e influenciadores digitais, podem ser alcançadas pela disciplina do trabalho simples e sem títulos pomposos no LinkedIn. Ser um faxineiro e outros trabalhos, infelizmente, desprezados pela maioria de nós, podem ser um ato de resistência ativa contra o caos e a superficialidade que nos adoeceu.

Pelos dias perfeitos, Arigato, Hirayama-san.

ChatGPT : O novo oráculo de Delfos?
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ChatGPT : O novo oráculo de Delfos?

Este texto analisa a profunda influência histórica do Oráculo de Delfos na Grécia Antiga e compara com o papel emergente da IA generativa nos dias de hoje. Abordando temas desde a orientação espiritual até o avanço tecnológico, examina como a IA, através de sistemas como ChatGPT e Perplexity, democratiza o acesso à informação.

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