O famoso Oráculo de Delfos exerceu no mundo grego uma influência incalculável, toda a literatura grega, desde a Ilíada até os últimos autores pagãos, fornece abundante testemunho disso1. Os consulentes buscavam orientação para suas angústias existenciais, que iam desde problemas sentimentais até questões políticas. Apesar de as mensagens terem teor profético e serem abertas a múltiplas interpretações, as respostas dadas por Apolo por intermédio das Pítias – as sacerdotisas desse deus – eram sempre levadas muito a sério pelos gregos.
No século XXI, muitos creem e apostam na IA generativa como o oráculo do nosso tempo. Sem os incensos e o clima místico das Pítias, a IA generativa, fundamentada em modelos de Machine Learning e no processamento de um vasto volume de dados, fornece respostas aos consulentes sobre praticamente todos os assuntos requeridos: dúvidas biográficas e históricas, dicas de turismo e culinária, correções e traduções de textos, resumos de obras literárias, planos de viagem e diagnósticos de doenças.
Os oráculos digitais, como o ChatGPT e o Perplexity, apresentam precisão informacional e espantosa proeza linguística, muitas vezes parecendo que tais sistemas possuem subjetividade ou consciência. A proliferação dessas ferramentas, que em breve estarão no WhatsApp, democratiza a busca e a geração de conteúdo2, outrora provida pela força laboral humana e que agora teme pela sua substituição diante do rápido avanço da IA generativa.
O medo pode ser justificado por sentirmos intelectualmente ameaçados pela IA. As respostas geradas por ela parecem mais confiáveis do que as fornecidas pelos especialistas, forjados em décadas de preparo árduo. Entretanto, pode-se dizer que um livro gerado pela IA tem mais relevância do que um produzido por um escritor experiente? Será que a democratização na geração e publicação de conteúdo realmente nos torna portadores de “conhecimento” e “especialidade”?
As consequências decorrentes da divulgação irrestrita de conteúdo não são exclusivas do nosso tempo e já aparece no século IV a.C., no diálogo “Fedro” de Platão 3. Neste texto, Platão dá voz a Sócrates, que mostra ao jovem Fedro as armadilhas contidas na disseminação do conhecimento pela escrita. Quando o discurso é arrefecido pela escrita, espalha-se por todos os cantos e atinge todos os tipos de alma, da sábia à ignorante.
Semelhante às figuras pintadas que parecem vivas, a escrita, quando interrogada, conserva-se calada, tornando-a incapaz de educar e adaptar às necessidades do leitor. Criam-se dessa forma falsos sábios, forjados não pela sabedoria conquistada pelo processo de instrução e meditação, mas pelo acúmulo desenfreado de informações. De acordo com Sócrates, diferente desse discurso bastardo, está aquele proferido pela ciência da alma. O discurso por esta via é carregado de força e vida, sabendo diante de quem convém falar e diante de quem é preferível ficar calado. Um discurso assim é capaz de se defender sozinho, ao contrário do outro que sempre precisa do auxílio do pai quando difamado e censurado.
A IA generativa semeia informação, mas não conhecimento. A sabedoria é fruto de muito estudo, da reflexão e principalmente de diálogo profundo. Confundir a facilidade em consultar e gerar informação com o conhecimento em si é um dos grandes erros do nosso tempo. Estudar um texto como Fedro não cabe numa consulta ao ChatGPT. O mesmo vale para o estudo de programação, design, arquitetura e qualquer outra área do saber humano.
As sementes plantadas às pressas, como nos cultos a Adônis narrados por Sócrates, crescem e morrem rápido sem gerar frutos. Àquelas plantadas de acordo com as leis naturais, obedecendo o tempo e o cultivo correto, prosperam e frutificam no tempo devido. A IA generativa, na qual o ChatGPT é somente um exemplo, semeia muita informação, mas é questionável o conhecimento que germina desse processo.
No ofício que me tange, digo que saber escrever é uma arte, muito diferente de colar uma lista de tópicos e pedir para o ChatGPT elaborar um texto. Um conteúdo assim é artificial, sem alma e sem ponto de vista. Não se trata apenas de forma, mas de essência. Qual o valor de algo assim se não tiver um fim totalmente utilitário, como um guia para montar um guarda-roupa ou trocar um pneu de carro? Um texto sobre a vida, uma análise política ou uma resenha de arte exige um olhar crítico e pessoal. A mesma regra se aplica à música, à poesia e à literatura.
Neste caminho, a IA será uma ferramenta poderosa de apoio e não um oráculo que substitua o conhecimento e a perspectiva humana. O conhecimento requer uma interiorização que não pode depender de elementos externos. Transformar a IA generativa numa muleta para a preguiça e o aprendizado rápido é desenvolver uma sociedade estéril e medíocre.
Fujamos do caminho dos prompts e do copiar-colar frenético. O conhecimento está incrustado na alma pelo esforço individual resultante do labor e dedicação mental. Quando isso ocorre de forma verdadeira, a ferramenta cumpre o seu papel de aprimorar a produção intelectual do portador do conhecimento. Somente ele pode criar a beleza, a justiça e propagar a verdade.
Devemos usar a IA generativa para pensar de forma mais ampla e profunda, e não de maneira limitada ou superficial. O conhecimento mais valioso é aquele que carregamos em nós. Os sábios gregos já tinham deixado inscrito em Delfos o caminho da verdade: “Conhece-te a ti mesmo”. Ouso reformar o aforismo para “Conheça você o seu ofício e mostre-o ao mundo", sem se transformar num mero apêndice executor de prompts da IA.
Referências
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Pereira, Maria Helena da Rocha. 2012. Estudos de História da Cultura Clássica. Cultura Grega - Volume 1. 11ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ↩︎
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Platão. s.d. Platão - Diálogos I - MÊnon, Banquete, Fedro. Traduzido por Paleikat, Jorge. Ediouro. ↩︎
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“Meta AI é lançado no WhatsApp, Instagram e Facebook em 13 países; confira”. s.d. Acedido a 14 de junho de 2024. https://www.techtudo.com.br/noticias/2024/04/meta-ai-e-lancado-no-whatsapp-instagram-e-facebook-em-13-paises-confira-edapps.ghtml. ↩︎